Klésio Hamada

Nada mais comum do que as brincadeiras, quase inofensivas, entre crianças e adolescentes em família, na escola, no clube, na rua, na internet... Quase inofensivas se, de repente, não partissem para empurrões, risadinhas, apelidos humilhantes, calúnias, atos preconceituosos e discriminatórios. Todos, ou já fomos vítimas ou presenciamos ou até participamos de certas brincadeiras que, na verdade, não eram bem brincadeiras.
Bullying e brincadeira: quando todos brincam e se divertem é uma brincadeira, mas quando todos brincam e se divertem às custas de um, agredindo-o verbal e/ou fisicamente, isto é bullying!
Estudiosos do comportamento infantil e juvenil revelam que, há bem pouco tempo, essas brincadeiras eram ingênuas e que atualmente não são mais configuradas como brincadeiras, mas as chamam de bullying. Não é um fenômeno novo, mas só agora é reconhecido como causador de danos e enfrentado com medidas preventivas e intervenções concretas.


Bullying é uma palavra inglesa que, segundo o dicionário, significa "colocar apelidos, ofender, discriminar, agredir, intimidar, excluir, humilhar, perseguir, ignorar, sacanear, ferir, amedrontar, dominar". Concentra-se na combinação entre intimidação e humilhação de uma pessoa, geralmente pessoas mais passivas ou que não exercem influência sobre alguém ou sobre algum grupo. É uma forma de abuso psicológico, físico e social.         
O fenômeno é mundial e em ambientes onde as crianças e os adolescentes mais convivem como, por exemplo, a escola, esse comportamento é também mais praticado, porém, a internet, cada vez mais invadida por crianças e adolescentes, é também um espaço no qual o bullying é muito praticado. Cada vez mais, a vida junenil está na Rede, parte da vida das novas gerações é virtual. “No meu site de relacionamentos estão todos os meus amigos!”, me confidenciou um jovem. Mas também é na Rede que crianças e adolescentes, cada vez mais,  humilham comunidades e sites pessoais, criam falsos perfis com o objetivo de prejudicar a imagem de uma pessoa, postam fotomontagens de situações constrangedoras, intimidam ou ameaçam por e-mail, MSN, entre outros instrumentos de comunicação virtual. Todas essas formas de agressões recebem o nome de cyberbullying, o bullying virtual. São comportamentos que aumentam ainda mais o sofrimento das vítimas, uma vez que no ambiente virtual quem pratica o bullying pode manter sua identidade no anonimato.
Apelidos como boiola, baleia, quatro-olhos, burro ou outros nomes ainda mais cruéis, que são usados normalmente entre os adolescentes, podem ter consequências muito negativas nas pessoas às quais eles são dirigidos. Não dá para imaginar o quanto isso pode comprometer sua autoestima, seu rendimento escolar, seu relacionamento consigo mesmo, com os colegas e com os adultos.

A vítima do bullying pode desenvolver sentimentos negativos que podem levar até a assumirem comportamentos agressivos; passar a ter medo de relacionar-se com os outros e a se isolar; demonstrar falta de vontade de ir à escola ou pedir para trocar de escola; mudar frequentemente o trajeto entre a casa e a escola; voltar da escola, repetidamente, com roupas rasgadas ou sujas e materiais danificados; parecer angustiado, ansioso e deprimido. Alguns episódios até terminam em homicídio ou suicídio. Evidentemente, são raros, mas sinalizam a que ponto pode chegar alguém que não suporta mais a humilhação, a vergonha e o sofrimento carregado por muito tempo no silêncio.
Os adultos precisam ficar atentos a esses sinais, a fim de ajudar as crianças e os adolescentes que são vítimas dessas brincadeiras a abrirem-se, a contar para alguém de confiança o que está acontecendo. Se a brincadeira for virtual, preservar o maior número possível de provas, registrá-las em cartório e denunciar apresentando as provas à polícia. Em muitas cidades, existem delegacias próprias para investigar crimes virtuais.
Quem pratica o bullying precisa de ajuda, precisa de alguém que mostre reprovação a tais comportamentos, mas que demonstre também compreensão, acolhimento e amor, para que, em outras etapas da vida, esse comportamento antissocial não seja assumido em âmbito familiar ou profissional. O bullying pode ser reduzido, criando uma cultura da não violência, da solidariedade, do respeito mútuo. Em outras palavras, introduzindo desde a primeira infância um parâmetro ético conhecido mundialmente como Regra de Ouro, “faça ao outro o que você gostaria que fosse feito a você e não faça ao outro o que você não gostaria que fosse feito a você”.


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